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19/12/2008

PARADOXOS DE NATAL

Era 23 dezembro. Eu andava pelo centro da cidade em busca de presentes de Natal para dar aos amigos e familiares. Nessa época do ano, o comércio fica super aquecido e o clima parece agitar os calores e humores dos indivíduos. Mesmo com todo esse aquecimento, a importação da cultura do Hemisfério Norte obriga as pessoas a comprarem algodão para espalhar pelos pinheiros sintéticos que ficarão num canto da sala de suas casas, para que, na noite do dia 24, fiquem rodeados de presentes, principalmente nas casas em que há crianças e infra-estrutura econômica que comporte tal situação.

Na busca dos presentes ideais para essa estranha festa tropical, às vezes me deparava com homens vestidos com roupa de cetim e usando barba postiça, sentados num trono, balançando um sininho e tirando fotos com crianças impressionadas com os velhinhos exóticos dentro de uma indumentária pesada, em pleno verão de quarenta graus. Rituais paradoxais, num período do ano em que o ser humano tenta dar o melhor de si para o semelhante. Eu, com toda a minha experiência e consciência, apesar dos anos de estrada neste mundo de Deus, não conseguia ignorar a festa cristã e tentava dar a minha contribuição ao forçar o imaginário para ser feliz.

Depois de muito lenço no rosto para limpar o suor, estourei o meu cartão de crédito no momento em que terminava de fazer a compra de uma dezena de presentes, que foram devidamente embrulhados e acondicionados em sacolas que me permitissem levá-los ao estacionamento, onde estava o meu carro. Foi nesse caminho de volta, quando dobrei a última esquina antes do estacionamento, que vi um Papai Noel estirado no chão, sem ninguém por perto para ajudá-lo. Diante da cena, corri na direção do senhor que agonizava, segurei-o e levantei um pouco seu tronco e sua cabeça. Ele estava semiconsciente e, ao perceber o socorro, pediu-me para que colocasse a mão no seu bolso direito. Coloquei e de lá retirei quinhentos reais, uma foto e um bilhete. Quando disse o que tinha na mão, ele implorou-me para que entregasse o dinheiro para a senhora da foto no endereço que estava no bilhete, onde também havia um número de telefone. Falou isto e, logo depois, desmaiou. Diante das circunstâncias, peguei o celular, disquei o 192 para ter atendimento médico e, com a ajuda de algumas pessoas que começavam a se aproximar, carreguei o senhor para a sombra de uma marquise. Quando o socorro médico chegou, constatou que o caso realmente exigia cuidados e removeu o bom velhinho para o hospital público mais próximo do local.

Com todos aqueles fatos repentinos, eu me sentia atordoado o suficiente para não ter percebido o furto das sacolas com os presentes que comprei. Quando notei, o sangue subiu à cabeça. Havia estourado meu limite de crédito e perdido um tempo precioso naquele calor infernal para, no final, ficar sem nada por causa daquele moribundo que apareceu na minha frente. Pus a mão no bolso e senti as cédulas, o bilhete e a foto que ele me havia feito retirar de seu bolso, na hora da agonia. Não pensei duas vezes: com aquele presentão de Papai Noel, voltei para as lojas e comprei praticamente tudo outra vez. O dinheiro que sobrou foi a conta certa para pagar o estacionamento.

No dia seguinte, já era véspera de Natal. Árvore enfeitada com bolas, luzes e algodão. Presentes em volta do pinheirinho sintético e a consciência super tranqüila. Logo depois do almoço, saí para comprar algumas guloseimas para a ceia. Se existe alguém infeliz, nessa época do ano, são os comerciários, obrigados a ficar até quase meia-noite a serviço de seus patrões para poder ganhar o salário com bônus de Natal. O supermercado estava repleto de gente preocupada com seus pertences e com o que colocavam nos carrinhos. Depois de muito suar e de quase ter uma congestão, segui com a futura ceia para a fila quilométrica de um dos caixas. Angústia maior era aquela de ter de ficar mofando numa fila de supermercado para poder levar algumas frutas importadas e um peixe sem cabeça para casa. Depois de meia hora naquela situação desesperadora, o marasmo interior se perdeu no tumulto do recinto e uma onda de contra-sensos iniciou-se pela minha cabeça. Larguei o carrinho com as compras num canto qualquer, fui para a calçada do estabelecimento e peguei um táxi em direção ao centro da cidade. No prédio branco, pedi autorização para ir até a enfermaria. Ao chegar lá, encontrei Papai Noel com um semblante que já transparecia saúde. Olhou-me de maneira enigmática e eu imediatamente me apresentei como a pessoa que o havia socorrido. Ele sorriu e logo depois franziu a sobrancelha. Tirei mil reais que tinha na carteira e entreguei para ele, que ficou sem entender muito bem o porquê de tamanha quantia. Expliquei que estava no bolso dele, quando o encontrei passando mal. Ele falou que se lembrava de ter quinhentos e não mil e eu disse que ele estava enganado. O senhor não falou mais nada e eu me despedi, sem deixar de notar, antes de sair da enfermaria, que o sorriso do bom velhinho ia de orelha a orelha.

De volta ao supermercado, ainda pude encontrar o carrinho que havia deixado encostado num canto. Peguei-o e segui melancólico para a fila do caixa. Quando chegou a minha vez, bacalhau, tâmaras, nozes e castanhas passaram pelo caixa, mas não foram comigo, porque o meu dinheiro ficou todo com Papai Noel e o cartão de crédito estava bloqueado. Lembrei-me do sorriso dele, quando saía da enfermaria. Juro que me deu vontade de voltar lá para dar-lhe umas porradas, mas a verdade é que ele não tinha culpa de nada. Nem eu, acho.
Felipe Cerquize

Um comentário:

Álvaro Andrade disse...

Olá, cara!

Vim aqui para agradecer pelos novos vídeos sobre o Leminski postados no YT. Sou grande admirador e novas descobertas são como um presente do acaso. Se nesse caso tem nome, vim procurar.

Abraço. Outra hora volto com mais tempo para ler seus relatos.