CD INTEGRIDADE - CLAUDIO NUCCI & FELIPE CERQUIZE

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25/05/2009

O AUTO-NECROLÓGIO ESCRITO POR ZÉ RODRIX

Zé Rodrix (Foto de Toninho Vaz).
Um texto que escrevi, abordando o boato histórico sobre a morte do Paul McCartney, foi motivo para uma brincadeira com o querido amigo Zé Rodrix, cinco anos atrás. Quando enviei o texto para uma lista de discussão, o Zé, no jeito contundente e irreverente que lhe era peculiar, pediu para que eu escrevesse uma história noticiando a sua própria morte. Aí, eu fiz. O título era "O último artista do século XX" e no texto começo descrevendo feitos verdadeiros de sua vida, depois avançando no tempo e descrevendo outros tantos que tirei da imaginação. Na minha história, ele morre aos 144 anos de idade, no longínquo 2091, pois essa foi a forma de atender o pedido dele e ao mesmo tempo brincar com coisa tão séria sem passar o sentimento de medo ou a percepção de perigo.
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E como o Zé Rodrix era uma pessoa realmente contundente, irreverente e criativa, não satisfeito, ainda me enviou um auto-necrológio, abordando os principais assuntos que estavam no meu texto e outros que provavelmente eram desejos verdadeiros seus. Transcrevo a seguir:
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"Felipe: Em resposta a seu completissimo questionario passo-lhe às mãos minhas especificações para passamento e eventual necrologio.
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Há alguns anos, gostaria de ter a causa-mortis preferida de meu pai: assassinado aos 98 anos de idade com um tiro dado por um marido ciumento que o tivesse pego em pleno ato… mas hoje nao mais. Pode ser de fulminante ataque cardiaco, dentro da minha biblioteca, perto o suficiente da familia e dos amigos mas afastado o bastante para que, alertados pelos cachorros da casa, ja me encontrem morto, com um sorriso nos labios.Pode sepultar-me em pleno mar, sob a forma de cinzas, ja que nao poderei ser sepultado in totum no jardim da minha casa. Se conseguirem isso, no entanto, que nao cobrem entradas para visitação, à moda do irmão da princesa: deixem que alem das pessoas os passarinhos e os animais da casa se refestelem no lugar, renovando diariamente o eterno ciclo da Natureza. Ao enterro devem, atraves de convite formal, comparecer todos que foram aos meus lançåmentos de livro: nada mais parecido com um velorio do que isso. Peço parcimonia nos efluvios emocionais: já as risadas devem ser francas e sem limite. Creio inclusive que prepararei com antecedencia uma fita de piadas gravadas para animar o velorio e manter o pessoal na boa. Como dizia o Bozo, “sempre rir, sempre rir….”La so deixarei a mim mesmo: mesmo os inimigos que comparecerem para ter certeza de que estou realmente morto podem voltar para casa em paz. Nao pretendo puxar a perna de ninguem à noite e nem assombra-los depois de morto. Já os amigos podem contar comigo: havendo vida após a morte, volto para avisar, da maneira mais pratica e menos assustadora que me for possivel. A cremação deve ser feita depois que todos forem embora cuidar de seus proprios afazeres: enfrentar as chamas do forno terrestre ja será um grande introito para a vida eterna. Se conseguir, tentarei ser crooner da grande Orquestra de Jazz do Inferno, vulgarmente chamada de SATANAZZ ALL-STARS: como ja vou chegar la tenente ou capitão, dada a minha imensa taxa de maldades realizadas sobre a Terra, creio que nao será dificil. Meu castigo certamente será cantar MPBdQ por toda a eternidade, mas mesmo com isso ainda se pode encontrar algum prazer, assim na terra como no inferno….é o que veremos a seguir. No enterro podem tocar de tudo, menos as musicas que eu tenha feito. Minha morte servirá certamente para que se livrem nao apenas de mim mas tambem de minhas obras. Os herdeiros tambem nao merecem ouvi-las, sabendo que nada herdarão de minha lavra, porque, sendo eu adepto da politica do VAI TRABALHAR, VAGABUNDO, como meu pai fez comigo, ja tomei providencias para que essas musicas nao lhes rendam nem um tostão furado. Sendo um velorio moderno, recomendo musicas de carnaval antigo, as indiscutiveis, claro, com algumas discretas serpentinas e confetes jogadas sobre o caixão, fechado, naturalmente. Morrer num Sabado à tarde, ser enterrado num Domingo antes do almoço, e estar completamente esquecido na manhã de Segunda, sem atrapalhar a vida profissional de ninguem: eis a perfeição que desejo na minha morte.
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Muito grato.
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beijos
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Z"
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Sinto pelo ser humano, que conheci e com quem tive a oportunidade de me relacionar por cerca de cinco anos, e pela arte do nosso país, que perde um de seus expoentes.
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Ficam as saudades do amigo.
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Abraços!
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Felipe Cerquize



09/05/2009

ESTRADA REAL I

FOTO TIRADA NO MEMORIAL CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
INTRODUÇÃO
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De 15 de janeiro a 1º de fevereiro de 2009, estive em viagem pelo circuito da Estrada Real, que tem duas vertentes: uma que começa na cidade do Rio de Janeiro e outra que se inicia em Paraty, litoral sul do estado do Rio. Ambas as vertentes se encontram em Ouro Preto e de lá seguem numa só para Diamantina. Abaixo, uma breve descrição do circuito, retirada do site http://www.estradareal.org.br (trecho entre aspas):
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“A Estrada Real foi sendo construída nos muitos anos de idas e vindas, das Minas ao litoral, desde o século XVII, em busca das riquezas. Caminhar pela Estrada Real é seguir os passos e os caminhos percorridos pelos escravos, pelo ouro e pela história. Constituída, ainda, pelas vias de acesso, os pontos de parada, as cidades e vilas históricas que se formaram durante o passar dos homens e do tempo.
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Inicialmente, o caminho ligava a antiga Villa Rica, hoje Ouro Preto, ao porto de Paraty, mas pela necessidade de uma via de escoamento mais segura e mais rápida ao porto do Rio de Janeiro e, também por imposição da Coroa, foi aberto um "caminho novo". A rota de Paraty passou a ser o "caminho velho", a partir do século XVIII. Com a descoberta das pedras preciosas na região do Serro, a estrada se estendeu até o Arraial do Tejuco (atual Diamantina), deixando Ouro Preto como o centro de convergência da Estrada Real.
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Assim se formou o complexo da Estrada Real, ou seja, mais de 1600 km de patrimônio, cercado de montanhas, natureza, cultura e arte.”
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A minha trajetória começou pelo caminho novo, no Rio de Janeiro, de onde saí às 14:00 h do dia 15/01, seguindo pela BR-040 (Rio–Brasília), até Barbacena, por onde passei para tomar o caminho de Tiradentes, num percurso total de cerca de 340 Km. Além de explorar bem a riqueza cultural de Tiradentes, essa cidade também me serviu de base para conhecer o município de São João del Rei e a localidade de Bichinho.
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No quarto dia (18/01), segui para Ouro Preto, que fica a 200 Km de Tiradentes, porém, passando antes por Congonhas, para conhecer o seu centro histórico e os Profetas do Aleijadinho. Ouro Preto foi a maior das cidades que visitei nessa minha viagem e nela permaneci por três dias, sem deixar de ter a preocupação de definir um roteiro enxuto para que não ficasse algo importante sem ser conhecido. Essa foi outra cidade base e dela parti por um dia inteiro para conhecer Mariana, que fica a pouco menos de 20Km de lá.
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Na quarta-feira (21/01), fui para Itabira, também numa viagem de cerca de 200 Km. Lá, pernoitei dois dias, um dos quais dedicado inteiramente aos Caminhos Drummondianos, que detalharei oportunamente nestas memórias.
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No dia 23/01, parti finalmente para Diamantina, cidade extrema da Estrada Real. Antes de chegar a lá, passei por várias cidades históricas menores, como Catas Altas, Santa Bárbara e Serro Frio, essa última de porte um pouco maior do que as outras. Diamantina fica a cerca de 300 Km de Itabira e, depois de conhecer os pormenores da cidade, tirei uma noite para conhecer a Folia de Reis da cidade de Curralinho, que fica a 8 Km do antigo Arraial do Tejuco.
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Foi nesse ponto que optei por descolar da Estrada Real, e, no dia 25/01, deixei Diamantina e rodei cerca de 150 Km, a fim de chegar de volta à BR-040, de lá seguindo mais 50 Km rumo a Cordisburgo, terra natal de João Guimarães Rosa. Caetanópolis, cidade vizinha de Cordisburgo, é onde fica a Gruta de Maquiné, que também selecionei como parte do roteiro.
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A essa altura da viagem, no afã de otimizar o tempo escasso que tinha, saí de Cordisburgo para Três Pontas, dirigindo 420 Km sem parar. Na verdade, essa quilometragem completou-se na cidade de Varginha, aonde cheguei à noite e pernoitei para, no dia seguinte (27/01) viajar mais 35 Km, até Três Pontas.
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De lá, depois de conhecer a casa de Milton Nascimento e os meandros da cidade e suas adjacências, retornei a Varginha (passagem obrigatória) e passei por Três Corações e Cambuquira, até chegar a São Lourenço, retomando a Estrada Real nesse trecho do “caminho velho” (Percurso total de mais ou menos 120 Km). Em São Lourenço, que para mim é uma cidade especial, fiquei de 28 a 31/01.
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De São Lourenço a Visconde de Mauá, fiz o último trecho dessa viagem (140 Km). Foi em Maringá de Minas, cidade a 5 Km de Visconde, que pernoitei, antes retornar para casa, com direito a um almoço de despedida em Penedo, às 17:00 h do dia 01/02.
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Como comentários gerais sobre o trajeto, além da beleza e da riqueza cultural de todas as cidades visitadas, um ponto forte a ser destacado é a qualidade da pavimentação de todas as rodovias que utilizei para fazer o circuito da Estrada Real. Ficou claro, para mim, que o governo de Minas Gerais está investindo no turismo, dentro desse circuito. Os piores trechos de rodovias que utilizei durante a viagem foram ou fora de Minas ou fora do circuito da Estrada Real, mas não pela qualidade da pavimentação. Cito dois deles: 1) Trecho da BR-040 no Rio de Janeiro, que tem um custo / benefício duvidoso, pois, a cada 60 Km de estrada, pagam-se quase R$ 8,00 de pedágio (na Via Dutra, por exemplo, se paga valor semelhante, mas a cada 100 Km). 2) Trecho da Fernão Dias, que liga Belo Horizonte a Varginha, onde a estrada é boa, mas a sinalização sofrível.
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Duas outras observações importantes sobre a viagem, na minha opinião, dizem respeito à meteorologia e ao meu veículo de transporte. Na primeira, o tempo foi super generoso comigo e, mesmo com todas as cenas de enchentes vistas na televisão, durante o período que estava em viagem, o máximo que peguei na estrada foram alguns chuviscos. Na segunda, foi o meu carro, que se comportou como um campeão, não dando sinais de fadiga ou de defeito em momento algum do percurso total de 2300 Km, que rodei. Quando terminei a viagem e o estacionei na garagem de casa, a primeira coisa que fiz foi bater palmas para ele, um Manuel Audaz on road.
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Na próxima publicação, iniciarei o relato sobre cada cidade por que passei.
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ESTRADA REAL
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O sangue escorrendo pelo chão,
pelos veios de ouro e diamante.
Instrumento de tua perdição
que serviu ao servil ignorante.
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Mas o tempo, senhor soberano,
mostra sempre o que é certo e o que é errado.
São as lutas travadas no caminho
que não deixam a gente aqui sozinho.
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Os teus mártires não morreram em vão,
eu os vejo no asfalto da estrada.
O poeta ainda inconfidente
sabe como dizer o que ele sente.
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Cadafalso, corrente e garrote,
ciclotímicas surras com chicote.
As cidades exibem o teu lanho
e quem passa não acha isso estranho.
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Realeza do Quinto e da Derrama,
hoje tuas cidades são pacatas.
Tuas cruzes são feitas pra quem ama,
tuas luzes tornaram-se abstratas.
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Ó estrada real e imaginária!
Desfaz teu passado com o futuro.
Mostra a arte da verve que te serve,
ilumina o teu lado escuro.
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Felipe Cerquize
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ESTRADA REAL II

VISTA DE UMA RUA DE TIRADENTES DURANTE PASSEIO NOTURNO
TIRADENTES (MG)
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Saí às 14:00 h do dia 15/01, seguindo pela BR-040 (Rio–Brasília). As surpresas que tive nessa estrada foram três pedágios caríssimos e dois temporais de verão, rápidos, mas intensos. Depois de rodar pouco menos de 300 Km, entrei em Barbacena, onde parei rapidamente para deixar o passado invadir minhas lembranças mais à vontade, pois estive algumas vezes nessa cidade, no início da década de 80, na casa de parentes de minha mulher, que viviam lá e em Correia de Almeida, uma pequena cidade vizinha. Foi em Barbacena, naquela época, que convivi com a rotina de uma fazenda agropecuária, acordando cedo, vendo ordenhas de vaca, colheitas e gente matando a cobra e mostrando o pau, literalmente. Depois dessa breve parada, segui viagem por mais 60 Km de estrada, até chegar ao destino desejado.
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Tiradentes impressiona pela conservação de seus prédios e ruas, com respeito máximo às suas origens. Para se ter uma idéia, não há fiação aérea no centro histórico, pois toda a rede elétrica é subterrânea (o que não acontece em Ouro Preto, por exemplo). Cheguei de mansinho, chacoalhando nos pés-de-moleque, e subi pela rua em que dois colegas de trabalho haviam me sugerido duas pousadas. Como ambas estavam lotadas, sem opção, segui em frente, saí na rua da igreja matriz, desci a ladeira e, logo no seu início, apareceu uma entrada chamada Largo do Ó. Ali, havia uma pousadinha, “criativamente” chamada “do Ó”, onde fiquei.
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Apesar de estar entre as menores cidades do circuito que visitei, essa foi uma das poucas em que permaneci por dois dias inteiros. Muitas opções de bons restaurantes, um número razoável de atrações turísticas e duas outras cidades próximas, para onde fui, mas mantendo a base em Tiradentes: Bichinho e São João Del Rei. O melhor dos passeios dentro da cidade foi o de jardineira, em um giro noturno nesse carro antigo, onde o motorista percorre todas as ruas e para nos pontos mais notáveis para contar suas histórias de uma maneira bastante peculiar. O museu do padre Toledo (um inconfidente muito prestigiado na cidade), a Matriz de Santo Antônio, o Chafariz de São José, a única estátua de Tiradentes em que ele está vestido como alferes etc. O motorista tem uma maneira de contar as histórias que surpreende. Com ele, aprendi a origem de alguns termos e expressões, como “pé-de-moleque” (as mucamas faziam aquele doce com amendoim e o punham na janela para esfriar, quando, então, os meninos tentavam furtá-lo e elas apareciam e falavam: “Não faz isso! Pede, moleque, que eu te dou um pedaço!”), “sem eira nem beira” (as abas dos telhados dos ricos tinham dois acabamentos: um interno, que se chamava “eira” e outro externo, conhecido como “beira”. Na casa dos pobres não havia isso, daí a expressão que permanece até os dias de hoje) e “nas coxas” (na época do império, as telhas eram moldadas nas coxas das escravas e, por isso, saíam com tamanhos e formas variados, dependendo do corpo da modeladora. Daí a expressão, que passa a idéia de coisa mal feita). Ao final do passeio, subimos por uma ladeira e fomos parar num mirante, de onde avistamos as luzes da cidade e conseguimos identificar os principais prédios e todo o roteiro feito pela jardineira.
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Saindo para as cercanias, o passeio de maria-fumaça, que cada vez mais se multiplica pelas cidades históricas de Minas. Lá, o trajeto é de Tiradentes a São João Del Rei. Campos, rios, gado, apito e balanço de trem são coisas que me fazem rejuvenescer. Filmei um trecho do passeio, quando saíamos de São João Del Rei, o qual pode ser visto no endereço
http://www.youtube.com/watch?v=pocbHiuEEcs&feature=channel_page .
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Um espetáculo, também imperdível, é o que acontece após as missas noturnas da Matriz de Santo Antônio. Existe um sistema de som e luzes instalado na igreja, em que um locutor narra toda a sua história, descrevendo e iluminando separadamente cada um de seus altares, o órgão secular, as imagens barrocas, o sacrário etc. É um projeto que tem o patrocínio da Rede Globo.
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As lojas de artesanatos da cidade são muito variadas. O centro sempre muito movimentado e com muitos turistas. No Largo das Forras, principal de Tiradentes, ficam charretes para passeios e há muitos bares e restaurantes à sua volta. Os poetas aparecem junto com histórias sobre a Inconfidência (principalmente Tomaz Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto), mas não percebi a sublimação poética que é tão intensa em outras cidades históricas do circuito pelo qual passei. Porém, existem movimentos artísticos fortes na cidade e foi possível vê-los em ateliês, em exposições de arte moderna e em corais que se apresentavam pelas ruas. Filmei um desses grupos e disponibilizei a gravação no endereço
http://www.youtube.com/watch?v=2nfyd-auX58&feature=channel_page. É o Grupo Oficina de Teatro Entre & Vista que, naquele momento, cantava a música “Bem-te-vi”, de Renato Terra.
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Existem outros passeios, do tipo “adventure”, sendo o principal deles a subida pela Serra de São José, que pode ser feita a pé, a cavalo ou de jipe. Essa é uma opção turística que não me agrada muito, além do quê, o tempo fechado também não estava ajudando a fazer turismos mais radicais. Por essa e por outras, substituí essa atividade por passeios pelas lojas da cidade e por um bom chocolate quente na pousada. Também não deixei de comprar o famoso doce de leite do Bolota, indicado até pelo Guia Quatro Rodas (um doce de leite light, saborosíssimo, vendido na casa do proprietário).
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No dia 18 de janeiro, fiz o último passeio pela cidade, aprontei as malas e peguei o caminho para Ouro Preto, via Congonhas.
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SONETO PARA TIRADENTES
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Confundo a cidade com o homem,
confundo o homem com o conjurador.
Fecharei tuas ruas antes que as tomem,
juntarei meus versos com a tua dor.
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Romanceiros, poetas da Inconfidência,
sigo o rastro de teus apontamentos.
Meu suicídio é no cadafalso da inocência
e nas gotas de lágrimas de teus lamentos.
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Por aqui passaram mártires com sonhos,
por aqui passaram padres, poetas e loucos,
por aqui passou a liberdade em sementes.
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Por aqui passam muitos imbecis bisonhos,
por aqui passam tantos, mas são poucos
que desfrutam do sol de Tiradentes.
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Felipe Cerquize
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ESTRADA REAL III

SOLAR DA FAMÍLIA DE TANCREDO NEVES EM SÃO JOÃO DEL REI
SÃO JOÃO DEL REI (MG)
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Quando tracei o meu roteiro pela Estrada Real, minha opção foi a de não me hospedar em São João del Rei. Depois que a visitei, concluí que fiz uma boa escolha. Claro que, quando a gente faz a estada num determinado lugar, fica mais gabaritado para julgá-lo, mas o fato é que, lá, não percebi o glamour das outras cidades que estavam no meu roteiro.
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Depois de uma viagem de maria-fumaça, de Tiradentes a São João del Rei, que levou cerca de meia hora, saltei na estação e entrei numa van fretada, a fim de conhecer os principais pontos turísticos. Quando ainda estava no trem, percebi muito lixo às margens da linha férrea, na chegada da cidade. O cenário não era diferente ao caminhar por suas ruas, contrastando com Tiradentes, uma cidade extremamente limpa, onde imagino que a coleta de lixo deva ser feita de madrugada, pois não vi um lixeiro sequer, de dia e à noite.
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O guia turístico nos conduziu a uma primeira igreja, onde sempre se ouvem aquelas mesmas histórias sobre a quantidade de ouro incrustada nas pinturas e os detalhes da arte barroca. Na terceira igreja que ele nos levou, me recusei a entrar, já sem paciência, e fiquei dentro da van, olhando o chuvisco que caía na rua e no vidro do carro. Depois de quase meia hora, achei estranho os passageiros não terem retornado, pois o normal eram, no máximo, quinze minutos para uma visita desse tipo. Saí do carro e perguntei ao motorista por que todos estavam demorando tanto. Foi aí que fiquei sabendo que aquela era a igreja onde havia o cemitério em que Tancredo e Risoleta Neves estavam enterrados. Depois de uns dois palavrões, pela falta de comunicação, fui até a igreja e visitei o cemitério, tudo muito rápido, devido ao tempo perdido. Em seguida, fomos visitar uma fábrica de taças, vasos e jarras em estanho, bastante artesanal, porém com um acabamento das peças fabricadas tão bom, que a gente não consegue imaginar o quão rudimentar e insalubre para os trabalhadores é o lugar de onde elas saíram. Finalmente, depois de mais algumas voltas pelas ruas históricas da cidade, fomos parar em frente ao solar da família de Tancredo Neves (ver foto), muito bem cuidado, provavelmente com herdeiros da família ainda ocupando o imóvel. Nesses passeios, sempre ficamos sabendo algo que, por alguma vacilada ou falta de atenção, não havíamos aprendido, até então. Nesse, foi o caso da diferença entre um sobrado (casa de dois andares, em que o primeiro é comercial e o segundo residencial) e solar (casa de dois andares, residencial, com portas e janelas simples, embaixo, e janelas com sacada, na parte de cima, tendo um certo requinte no acabamento).
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Tudo isso, que descrevi nos parágrafos acima, ocupou a tarde que tive para conhecer São João del Rei. Na volta, quase perdemos o trem para Tiradentes, pois o motorista da van, com toda sua calma interiorana, dizia que não precisávamos nos preocupar com o tempo, pois chegaria à estação em cinco minutos, visto que o trânsito na cidade não engarrafava. Acabou de falar aquilo e nos deparamos com um acidente, entre um caminhão e um carro, que deixou todas as ruas de acesso à estação de trem congestionadas. Mas como todo mundo se conhece e tudo se sabe nas cidadezinhas do interior, o trem esperou seus passageiros, saindo com um atraso de quase meia hora. Faltaram a poesia e os poetas, em São João del Rei.
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A POESIA DE SÃO JOÃO DEL REI
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Está no lixo que cobre a cidade
Nos bêbados caídos pelas praças
Nos loucos que parecem ser normais
Naqueles que fabricam suas taças
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Nos cemitérios com gente importante
Dentro da igreja pintada de ouro
Vejo suas jóias como um viajante
Mas não consigo enxergar seu tesouro
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Vai na fumaça e no apito do trem
Na calmaria dos seus descendentes
O trem que parte é o mesmo que vem
Trazendo nele o sol de Tiradentes
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Não me interessa ter-te desprezada
Só digo as coisas que eu vivi contigo
Quem sabe, um dia, volte pela estrada
E me ofereça pra ser teu amigo?
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Felipe Cerquize
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ESTRADA REAL IV

ARTESANATO NA PAREDE DE UMA LOJA EM BICHINHO
BICHINHO (MG)
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No dia 17 de janeiro de 2009, atravessei o Largo das Forras e saí do centro histórico de Tiradentes rumo ao único posto de combustíveis da cidade, caminho que, na sua continuidade, conduz o turista ao pequeno distrito de Vitoriano Veloso, mais conhecido como Bichinho. É uma localidade distante cerca de 8 Km de Tiradentes, famosa pela qualidade e pela criatividade das obras dos artesãos que estabeleceram comércio por lá. A estrada não é boa, mas como o trajeto é curto, vale a pena encarar essa adversidade.
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O início da fama foi em 1991, na Oficina de Agosto, com o artista plástico Toti, que ainda restaura móveis e produz quadros e esculturas de material recolhido de demolições. Do ferro, Bageco faz lustres e arandelas. Bonecas de cabaça e de papel marchê são produzidas por Marcello Maia. Carmem tem colchas de retalho, capas de almofada, toalhas bordadas. É possível encontrar galos ciscando em quintais com capim viçoso e um Tiranossauro rex prestes a atacar turistas menos atentos. A vila é pequena e por isso fica fácil encontrar os ateliês, que costumam fechar por volta das 16:00 h.
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O Museu do Automóvel fica no meio do caminho entre Tiradentes e Bichinho. Recomendo que a visita seja feita na volta, sem estresse, pois existem antiguidades muito interessantes nos dois galpões que abrigam mais de 100 carros com anos de fabricação a partir de 1928. Há automóveis que já foram estrelas de comerciais e outros que foram alugados para novelas de época da Globo. A jardineira que faz o passeio noturno em Tiradentes (ver Estrada Real II) pertence ao Museu do Automóvel e é alugado para esse serviço.
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Para quem quiser almoçar durante o passeio, há algumas opções no centro de Bichinho e na estrada de acesso. A mais interessante delas, na minha opinião, é o restaurante Pau de Angu, que fica A 5 Km do centro do pequeno distrito.
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VITORIANO VELOSO
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Nada aqui se perde,
tudo aqui se cria
a partir da transformação.
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De um lado tijolo quebrado,
do outro a reconstrução.
É a lei dos homens
sem a lei do cão.
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É a lei dos bichos,
são nossos caprichos
querendo os detalhes
de um novo artesão.
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São fauna e flora
fazendo a hora.
Só assim se tem
uma revolução.
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Felipe Cerquize

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ESTRADA REAL V

BASÍLICA DE BOM JESUS DE MATOSINHOS
CONGONHAS (MG)
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Não me hospedei em Congonhas. De Tiradentes a Ouro Preto, são cerca de 200 Km e, no trajeto, tive de retornar à BR-040 (Rio – Brasília), num percurso de cerca de 10 Km. Nesse trecho é que se situa a cidade onde está a Basílica de Bom Jesus de Matosinhos, com os 12 profetas esculpidos em pedra-sabão por Aleijadinho. O destaque turístico de Congonhas resume-se a esse rico conjunto barroco, que foi classificado como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, em 1985.
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Doente, após anos de trabalho em minas de ouro, o imigrante português Feliciano Mendes fez uma promessa: se recuperasse a saúde, mandaria erguer um templo em honra ao Bom Jesus de Matosinhos. E assim foi. A obra começou em 1757, mas Mendes morreu oito anos depois, sem saber que de sua iniciativa surgiria um dos maiores tesouros da arte barroca. A visita à basílica divide-se em três etapas. A primeira é ainda do lado de fora, onde estão as seis Capelas dos Passos. Nelas estão representadas sete cenas da Paixão de Cristo, sendo que as três primeiras foram cromadas por Mestre Athayde e parte delas é criação de Aleijadinho. A segunda etapa da visita são os doze profetas em pedra-sabão, que foram esculpidos por Antônio Francisco Lisboa, entre 1800 e 1805, e enfeitam o adro da basílica. Por fim, a visita à igreja, que exibe traçado inspirado nos santuários portugueses de Matosinhos e Braga. O interior tem rica decoração rococó e a pintura do teto da nave, em cores vivas e traços marcantes, é assinada por Mestre Atahyde. Anexa à igreja, fica a sala dos ex-votos, que foi transformada em museu. De costas para a igreja, olhando para a cidade, têm-se, do lado direito, várias lojinhas de artesanatos, com seus relógios em pedra-sabão, colchas, redes, santos e até fitinhas de “Lembranças do Senhor de Bom Jesus de Congonhas”, numa clara imitação da célebre fitinha do Senhor do Bonfim (Salvador, Bahia). Do lado esquerdo, está o restaurante Cova do Daniel (Nome muito interessante, provavelmente em alusão a um dos profetas esculpidos), onde parei para comer um tutu à mineira delicioso. Dentro do restaurante, um pouco afastado do salão principal, existem umas baias, onde a rapaziada fica tomando cerveja e tocando violão. Escutei algumas boas canções do Gonzaguinha e do Chico.
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Depois do almoço, esperei por mais uma daquelas pancadas de chuva rápidas e segui para Ouro Preto.
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OS DOZE PROFETAS
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O primeiro é Isaías
Tem barba e cabelos longos
O profeta que mais fala
Sobre a vinda de Messias
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Usa uma túnica curta
Sobre a qual desce um manto
Era um iluminado
E por pouco não foi santo.
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O segundo é Jeremias
À direita de Isaías
Um homem de meia idade
Bem à moda bizantina
..
Tem na mão um pergaminho
Feito por Aleijadinho
Na cabeça um turbante
Que enriquece seu semblante
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O terceiro é Baruc
Profeta jovem e imberbe
Foi um nobre erudito
Que ajudou Jeremias
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Numa das mãos tem o manto
Seguro pelos seus dedos
E na outra a profecia
Que ele escreveu um dia
..
O quarto é Ezequiel
Do lado oposto a Baruc
Túnica longa e cintada
Com barba seccionada
..
O "profeta do exílio"
Fugiu para a Babilônia
Onde não havia as palmeiras
Que existem em Congonhas
..
Ladeando o passo do adro
Está o profeta Daniel
A quinta das doze estátuas
a cumprir o seu papel
..
Aparência altaneira
Com os louros da vitória
Por derrotar os leões
Que o levaram à glória
..
Oséias é o sexto profeta
O maior entre os menores
Com anatomia correta
Talvez seja um dos melhores
..
Botas tipo borzeguim
Casaco curto e fechado
Na mão direita uma pena
Profecias do outro lado
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Em sétimo vem Joel
Que disse que as mãos de Deus
Protegeriam Israel
De todo inimigo seu
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O segundo dos pequenos
Um profeta escatológico
Que assumiu grande importância
Na teologia cristã
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Abdias é o oitavo
E assume um baluarte
Ficando na contraparte
Do profeta Habacuc
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Numa escultura perfeita
Numa escritura sagrada
Levantando a mão direita
Onde pousa a passarada
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No arco de circunferência
Que une muros extremos
Está o profeta Amós
O nono de Aleijadinho
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Vestido como um pastor
Diferente dos demais
Com um jeito bonachão
Sugerindo estar em paz
.
O décimo profeta é Jonas
Aquele que caiu no mar
Um grande peixe o comeu
Mas conseguiu se salvar
.
Com a boca entreaberta
Cabeça voltada ao alto
Parece pedir perdão
Por errar na decisão
.
Habacuc é o penúltimo
E assume o outro baluarte
Ficando na contraparte
Do profeta Abdias
.
Com gola ornada por borlas
Um turbante em quatro gomos
Carrega alguns mistérios
Maiores do que supomos
.
E por fim o profeta Naum
Que previu a destruição
Da capital da Assíria
Séculos antes de Cristo
.
Numa sotaina abotoada
Uma estátua que destoa
Talvez a menos prezada
Por nosso mestre Lisboa
..
Felipe Cerquize

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ESTRADA REAL VI

VISTA DA CIDADE DE OURO PRETO (MG)
OURO PRETO (MG)
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Cheguei à antiga Vila Rica de Albuquerque no dia 18 de janeiro. Tempo chuvoso, mostrando a que veio a famigerada Zona de Convergência do Atlântico Sul, que molhou quase todas as almas brasileiras por mais de três meses. Como disse anteriormente (ver Estrada Real I), apesar de toda chuva, parece que São Pedro resolveu me poupar das mais fortes e prejudiciais, durante os percursos que fiz. Fiquei numa pousada situada no início do caminho para Mariana, mas era possível ir a pé até o centro de Ouro Preto. Do quarto que fiquei, viam-se as construções seculares e o Pico do Itacolomi, que impõe um ar místico ao cenário histórico da cidade (Em tupi-guarani, o nome quer dizer “menino de pedra ou “pedra menina”, ITA-CORUMI, pois para os índios o pico era visto como um “filhote” da montanha).
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Havia estado uma única vez em Ouro Preto, em 1992, quando fui participar de um curso em Belo Horizonte e aproveitei para esticar até lá com uns colegas de trabalho. Não percebi grandes progressos, na comparação do que vi nesses 17 anos de intervalo entre uma visita e outra, o que me pareceu ser exatamente o objetivo de seus administradores. Uma coincidência que me chamou a atenção foi que, na visita que fiz, na década de 90, havia morrido uma figura importante da cidade, cujo nome não me lembro, e um grande funeral passou por nós, quando passeávamos pela Praça Tiradentes. Nessa viagem de agora, enquanto visitávamos a Igreja do Pilar, fiquei sabendo do infarto sofrido pelo padre Simões, pároco daquela igreja, muito querido pelo povo de lá. Na manhã do dia seguinte, os sinos de várias igrejas tocaram, ininterruptamente, por mais de meia hora. Então, quando eu estava na praça de artesanatos de pedra-sabão, soube que ele havia falecido. Os moradores de Ouro Preto colocaram estandartes nas sacadas dos casarões e, no Museu da Inconfidência, a bandeira ficou a meio mastro. Na década de 60, Simões ajudou a recuperar diversas peças de arte sacra roubadas das igrejas históricas.
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A cidade tem uma variedade considerável de opções turísticas. Igrejas estão por toda parte, formando o maior conjunto barroco do país. Na Igreja de São Francisco de Assis, por exemplo, a beleza é resultado de uma dobradinha de mestres inspiradíssimos, pois Aleijadinho criou o projeto e Atahyde pintou o teto, que levou dez anos para ficar pronto. A Matriz do Pilar, onde padre Simões era o pároco, é considerada a segunda mais rica do Brasil. Já a Matriz de Nossa Senhora da Conceição foi projetada e construída por Manuel Francisco Lisboa, pai de Aleijadinho (as sepulturas de ambos estão nessa igreja, sob o piso). No Museu da Inconfidência, diversas poesias de Tomaz Antônio Gonzaga estão espalhadas pelas paredes, com muito requinte. Outro lugar interessante é a Casa dos Contos, antigo local de pesagem e fundição do ouro extraído na região. Visitar uma mina de ouro desativada e o Museu de Mineralogia também é inevitável. Para os atrativos turísticos mais distantes do centro, paguei um guia (sobram por lá, mas é importante utilizar os serviços de guias credenciados para não ter surpresas desagradáveis no meio do caminho). Procurei dar a ênfase que me era possível às atrações que retratavam os inconfidentes, como o próprio museu dedicado a eles, a casa de Cláudio Manuel da Costa (hoje, residência particular) e a casa de Tiradentes, cuja estátua na praça central da cidade está justamente no local onde a cabeça do alferes ficou à mostra, depois de ser enforcado e esquartejado no Rio de Janeiro.
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Fotos:
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Muitos cafés e restaurantes agradáveis no centro da cidade. Nos ladeirões, que acabam com o fôlego dos menos preparados, estão as principais ruas de comércio. No entorno da Praça Tiradentes, também há diversas lojas que vendem jóias e pedras preciosas, o que é uma atividade comercial tradicional em Ouro Preto. A diversidade das gemas extraídas naquelas plagas permite a criação de jóias finas e de qualidade. A cidade é a única produtora mundial de topázio imperial, o mais valioso entre os diversos tipos de topázio. As gemas são encontradas nas mais variadas tonalidades. Quanto mais forte a coloração, mais cara a gema.
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SONETO A OURO PRETO
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A cidade parada no tempo,
nuvens ao sabor do vento.
O sol vaza por teus ninhos,
clareando meus caminhos.
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Enquanto subo as ladeiras,
minhas pernas sorrateiras
tremulam como bandeiras
e brindam o prazer da dor.
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Brindam o laço da história,
a grandeza de teus poetas,
que atormentaram o amor.
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Tropeçam na tua memória,
caem nos braços do tempo,
mas depois cultivam a flor.
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Felipe Cerquize
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ESTRADA REAL VII

PRAÇA NO CENTRO HISTÓRICO DE MARIANA
MARIANA (MG)
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Mariana foi a primeira capital mineira e é a mais antiga cidade histórica do estado. Embora o seu pequeno centro preserve ricas igrejas e diversas construções com arquitetura colonial, o turismo por lá ainda é menos intenso do que na maioria das cidades renomadas da Estrada Real. É um local muito glamoroso e aparentemente organizado.
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Ao chegar, ainda sem saber onde era o centro histórico, fui parar na estação ferroviária da cidade (existe um passeio de maria-fumaça, de Mariana a Ouro Preto, que não fiz) e lá tive algumas poucas e boas surpresas. A primeira foi uma engenhoca eletrônica, onde era possível pesquisar tudo sobre a cidade e suas adjacências, bastando pressionar teclas, como se estivesse num caixa eletrônico, mas com a vantagem de ter uma voz estereofônica narrando os fatos relevantes ali registrados. A segunda foi um vagão-cinema, patrocinado pela Vale, que passa curtas-metragens que receberam o apoio cultural daquela empresa. A terceira, e para mim a mais impressionante, foi uma pracinha que fica em frente à estação, onde existem diversos brinquedos que também são instrumentos musicais verdadeiros, numa idéia muito criativa que estimula a criança e fustiga o adulto (fiquei quase meia hora tocando bumbo, xilofone e outros instrumentos de percussão).
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Depois desse intróito, com a orientação de moradores, segui a pé até o centro histórico de Mariana e fiquei fascinado. A essência da cidade resume-se a três ou quatro quarteirões, mas nessa pequena área é possível encontrar uma enorme concentração de prédios seculares. Na parte baixa, início do centro histórico, existe uma igreja e uma enorme praça (ver foto). Na parte alta, as igrejas multiplicam-se, próximas da Casa de Câmara e Cadeia, onde também há um pelourinho bem conservado, que deixa em evidência a insanidade humana de outros tempos. Existem obras de Aleijadinho e de Mestre Atahyde em várias igrejas.
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Depois dessas visitas imperiosas, tirei uma boa parte do tempo restante para conhecer a Casa de Alphonsus de Guimaraens, assim sabendo um pouco mais sobre a vida desse que foi um dos maiores poetas simbolistas brasileiros. Alphonsus nasceu em Ouro Preto, mas viveu a maior parte de sua vida em Mariana, nessa casa que visitei e que hoje é uma espécie de museu. Teve 14 filhos e morreu relativamente jovem, aos 51 anos. Não era um abastado e para mim ficou difícil imaginar como ele conseguia espaço para 14 filhos naquela casa de poucos cômodos. O filho caçula, seu homônimo, fazia parte da Academia Marianense de Letras e faleceu em agosto de 2008, com 90 anos. Ele escreveu a biografia do pai, disponível na Casa (naturalmente, comprei). Alphonsus pai morreu em 1921, quando seu caçula ainda tinha três anos, mas sua mulher, Zenaide de Oliveira, viveu até 1969. Para quem tiver interesse, é possível encontrar muita informação na internet, tanto sobre o pai quanto sobre o filho.
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Fotos:
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2142422&imageID=32807685 Cãmara Municipal de Mariana
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2142422&imageID=32807802 Chafariz
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2142422&imageID=32807859 Estação ferroviária
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2142422&imageID=32808099 Hino de Mariana
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2142422&imageID=32808785 Ruas e prédios
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Assim, tendo alimentado a alma, parei num pequeno restaurante para alimentar o corpo. Depois, voltei a Ouro Preto, onde estava hospedado (fica a menos de 15 Km de Mariana). No dia seguinte, parti para Itabira.
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MARIANA
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Bucólica cidade do interior de Minas
O centro histórico, a estação de trem
Nas praças, as pernas de tuas meninas
Na tua Via-Sacra, milhares de "amém"
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As igrejas, a Casa de Câmara e Cadeia
Cidade que dá permissão aos poetas
Não sei se os seios que servem a ceia
São parte da hóstia em missas secretas
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A chuva cai intensa, arrasta teus metais
Nós seguimos juntos, querendo a poesia
Na Casa de Alphonsus a teremos mais
O simbolismo em tudo que viveu um dia
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E o tempo nublado no céu da tua boca
E olhos marejados dizem vir mais chuva
Então, prenso as formas da arte barroca
Como espremo bagos em cachos de uva
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Felipe Cerquize
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ESTRADA REAL VIII

INTERIOR DA CASA ONDE MOROU DRUMMOND

ITABIRA (MG)
A organização turística na cidade de Itabira é péssima. Chegando lá, no dia 21 de janeiro, telefonei para a Secretaria de Turismo, solicitando um guia, e eles imediatamente me repassaram para um telefone do Centro Cultural Carlos Drummond de Andrade, cuja atendente, por não saber como dar conta do problema (problemaço!), pediu para que eu ligasse para o Memorial Carlos Drummond de Andrade. Lá, a menina que me atendeu informou que, naquela época do ano, os guias da cidade estão de férias (alguma coisa parecida com "restaurante fechar para almoço"), mas que poderia me indicar os ônibus para circular pelos "Caminhos Drummondianos", existentes na cidade. Desliguei, claro. A menina do hotel, então, me passou o telefone de uma agência de turismo, que me atendeu timidamente, dizendo que conseguiria um guia turístico para mim. Não retornou. Por fim, Karina (a menina do hotel) me sugeriu uma voluntária literária, conhecida como dona Dadá e, a partir daí, tudo correu às mil maravilhas.
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Maria das Graças Lage Lacerda, dona Dadá, é parente de Drummond e uma das mentoras dos Caminhos Drummondianos, que são 48 pontos na cidade, onde estão em destaque as lembranças do poeta em Itabira. Em cada um desses pontos, existe uma poesia de Carlos Drummond de Andrade, alusiva ao local ou a algum fato ali ocorrido. Por exemplo, a famosíssima poesia “José” foi escrita para o irmão mais velho de Drummond, depois que ele tentou raptar a mulher amada, chamada Amaryllis, que morava no solar onde hoje fica o hotel Itabira (Caminhos Drummondianos 13). Quando estávamos nesse ponto do percurso, filmei a narrativa de dona Dadá sobre a origem do poema e, em seguida, aproveitei para recitá-lo (disponibilizei a filmagem no You Tube. Link:
http://www.youtube.com/watch?v=T1iDwc5IzXM ).
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Abaixo, relaciono os 48 pontos dos Caminhos Drummondianos. Cada um deles tem o nome da poesia que está afixada no local. Abrindo-se os links indicados para as fotos, é possível ver a legenda de cada uma delas.
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1. A ilusão do migrante - Fica na entrada da cidade de Itabira, onde está uma enorme estátua de Drummond.
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32787993 Foto 1
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32787967 Foto 2
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2. O maior trem do mundo – Próximo à entrada da cidade, onde há uma praça com uma maria-fumaça em exposição a céu aberto. Nesse ponto, dona Dadá Lacerda recitou a poesia em referência, filmagem que pode ser vista no link
http://www.youtube.com/watch?v=z9dhQ6tWYkc
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32789654 Foto 1
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32789702 Foto 2
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3. Banho – Fica no Parque da Água Santa, local que Drummond frequentava, quando criança. Essa poesia também foi recitada por dona Dadá, durante o passeio, e está registrada no link
http://www.youtube.com/watch?v=U4G8txDSTHg
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32789613 Foto 1
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32789481 Foto 2
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32789562 Foto 3
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4. Lanterna mágica de Itabira – Fica próximo à rodoviária de Itabira e a poesia foi feita em homenagem a Tutu Caramujo, apelido de Antônio Alves Araújo, um comerciante de laranjas e de cartilhas, que era o único que vendia livros na cidade naquela época. Foi presidente da Câmara Municipal de Itabira, de 1860 a 1872.
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5. Documentário – Próximo à Casa do Brás. Neste local, funcionava o Hotel dos Viajantes, onde se hospedavam as pessoas que iam a Itabira a passeio ou a trabalho.
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6. Imagem, terra, memória – Situa-se entre a Casa do Brás e o Largo do Batistinha. Esse casarão pertenceu ao guarda-mor Custódio Martins da Costa e depois seu filho Brás Martins da Costa o herdou. Brás era comerciante e fotógrafo e foi quem retratou a sociedade e a paisagem itabirana no final do século XIX e início do século XX.
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7. Coqueiro do Batistinha – Fica no Largo do Batistinha. José Batista da Costa Filho, o Batistinha, era um comerciante culto, espirituoso e herdou do seu pai, o Coronel José Baptista Martins da Costa, um casarão onde morava e onde funcionava sua “Loja das Palmeiras”. O casarão foi destruído por um incêndio, em 1996. No terreno, onde é hoje o Largo do Batistinha, localizava-se o coqueiro relatado no poema.
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8. A Antônio Camilo de Oliveira – Figura ilustre de Itabira, foi agraciado com esse poema de Drummond, que recitei em frente à casa que foi do Dr. Oliveira. Link para assistir a récita:
http://www.youtube.com/watch?v=c1G5HxmIOYc .
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32787515 Foto
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9. Herói – Também em homenagem ao Dr. Oliveira, depois de retornar de uma longa viagem que fez à Europa. O local fica bem próximo ao ponto 8. Ser agraciado com duas homenagens do Drummond não é para qualquer um, ainda que com poesias singelas. Essa, quem recita é dona Dadá Lacerda. Link:
http://www.youtube.com/watch?v=bXpGU7wkOL4
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10. Procissão do encontro – Texto autoexplicativo (na foto, pode-se ler o poema). O local da placa fica próximo aos pontos 8 e 9.
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=34029965 Foto
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11. Terrores – Recitei essa poesia de Drummond no beco que serviu de inspiração ao poeta (Link:
http://www.youtube.com/watch?v=aHy56kx3xXs ). Segundo a história itabirana, esse local foi chamado de Beco do Calvário por três motivos: primeiro, porque em sua parte próxima à avenida Martins da Costa teria existido um tronco em que os escravos eram amarrados. Segundo, porque por essa travessa passavam os criminosos que eram levados pela Polícia para a cadeia. Terceiro, porque os cortejos fúnebres de crianças também passavam por ali e seguiam para o cemitério municipal (alto índice de mortalidade infantil, em Itabira, na época).
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32787753 Foto 1
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=34029890 Foto 2
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=34029955 Foto 3
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12. Cultura francesa – O imóvel, onde está a placa alusiva, pertenceu a Mestre Emílio Pereira, grande personagem do ensino em Itabira, citado nesse poema de Drummond.
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13. José – José Drummond de Andrade era irmão de Carlos e os dois tinham personalidades completamente diferentes. A grande paixão da vida de José era Amaryllis, uma itabirana da classe alta local, que morava onde hoje está o hotel Itabira. Foi lá que José tentou raptá-la, numa quinta-feira de Corpus Christi, sendo essa a inspiração para que Carlos escrevesse o poema. Recitei “José” no local e dona Dadá Lacerda fez um breve relato sobre essa poesia, no início da filmagem, que está disponível no link
http://www.youtube.com/watch?v=T1iDwc5IzXM
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14. Sobrado do Barão de Alfié – A mesma referência do item 13. O sobrado pertenceu ao Sr. Joaquim Carlos da Cunha, o Barão de Alfié, e foi construído por seu pai, Cassemiro Carlos da Cunha. Logo depois, passou a ser propriedade de Dr. Olinto Horácio de Paula Andrade, juiz de direito, no início do século XX, pai de Amaryllis, amada de José, irmão de Drummond e palco da história anteriormente citada. Atualmente, pertence à família de Hugo de Paula Andrade e nele funciona o hotel Itabira e o Restaurante Vide Gula.
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32787343 Foto
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15. Paredão – O Paredão, segundo história local , teria sido construído na administração do Coronel José Batista, presidente da Câmara no período de 1900 a 1912, com o objetivo de conter a terra da rua Tiradentes, situada em nível elevado em relação à rua Padre Olímpio. O local tornou-se ponto de concentração de jovens itabiranos. As moças passeavam pela rua, enquanto os rapazes encostavam-se no paredão. Era assim que muitos namoros se iniciavam.
http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=34029883 Foto 1
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32789805 Foto 2
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16. O inglês da mina – Nessa casa do século XIX, Drummond teve seu primeiro emprego. Trabalhou como caixeiro de um armazém de secos e molhados, que funcionava na parte de baixo da casa. Recebeu como gratificação um corte de casimira.
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17. A Alfredo Duval – Alfredo era pintor e escultor de imagens, considerado o maior santeiro da região. Possuía muitos livros e revistas, os quais Drummond pegava emprestados para aprimorar seus conhecimentos. Nessa época, Drummond era menino e Alfredo Duval um adulto. Alfredo também construía chafarizes.
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=34029474 Foto
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18. Primeiro automóvel – A placa está em frente ao casarão que pertenceu a Francisco Ozório de Menezes (Chico Ozório), que foi o primeiro proprietário de um automóvel em Itabira.
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=34029698 Foto
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19. Criação – Uma homenagem de Drummond à Banda Euterpe Itabirana, que foi fundada em 28 de novembro de 1868 e existe até hoje. Traz consigo uma coleção de documentos musicais antigos, partituras manuscritas e impressas produzidas e recolhidas por seus membros durante várias gerações. É uma banda atuante que está sempre presente nas manifestações festivas do município.
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=34029548 Foto
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20. Passeiam as belas – Ponto situado na avenida.Martins da Costa, a praça do Zoológico Mirim, que veio a ser inaugurada posteriormente. Ali, até a década de 50, era área de encontros e passeios da juventude itabirana.
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=34029690 Foto
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21. Cemitério do Cruzeiro – Segundo cemitério da cidade. Hoje, lá se enterram apenas pessoas cujas famílias já possuem jazigos. As crianças mortas, citadas na poesia “Terrores” (ver 11) eram enterradas nesse cemitério.
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22. Os pobres – Homenagem de Drummond aos pobres que frequentavam missas na Matriz de Nossa Senhora. do Rosário. No vídeo, recito a poesia em frente à matriz Link:
http://www.youtube.com/watch?v=5IEVDbAAgec&feature=channel_page
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23. Sino – Até os sinos eram (e ainda devem ser) sinônimo de status na Igreja Católica e na mesma Matriz de Nossa Senhora do Rosário havia um que tinha o nome de uma figura da classe alta itabirana. Drummond explora isto nessa poesia.
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32789427 Foto 1
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32788371 Foto 2
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24. Fruta-furto – Inaugurado em 1907, com o nome de Grupo Escolar Carvalho de Brito, foi o segundo grupo escolar a ser inaugurado no Estado de Minas Gerais, onde Drummond fez o curso Primário. O prédio original foi demolido e a construção atual datada da década de 1960. O poema está localizado na entrada do colégio.
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32787928 Foto
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25. Câmara Municipal – Localizada na Praça do Centenário, essa casa pertenceu ao Major Paulo José de Souza, primeiro presidente da Câmara Municipal de Itabira, de 1833 a 1837. Originalmente era uma casa térrea, ampliada no ínicio do século XIX e ocupada pela câmara em 1833, quando se criou o Município de Itabira do Mato Dentro, desmembrado de Caeté. Abrigou a Cadeia, o Fórum, a Prefeitura, novamente a Câmara e hoje é sede do Museu de Itabira.
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=34029325 Foto 1
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32787287 Foto 2
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26. O dia surge da água – Situado atrás do Museu de Itabira, na rua Major Paulo. O chafariz, que hoje está lá, é uma representação simbólica do Chafariz da Aurora, já demolido.
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27. O criador – O jardim interno da casa em que Drummond viveu com os pais em Itabira foi construído por um dos seus irmãos, que recebeu essa poesia-homenagem do poeta. A placa com o poema está afixada próxima ao jardim, que ainda existe na casa.
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28. Casa – Construída no século XIX, por Joana da Costa Lage Andrade, foi herdada por Carlos de Paula Andrade (pai de Drummond) que a vendeu em 1920 para Dr. Pedro Guerra, filho de Dr. Domingos Martins Guerra, fundador da Fábrica de Tecidos da Pedreira e sócio–fundador da Fábrica de Tecidos da Gabiroba. Nessa casa, Drummond viveu parte de sua infância e adolescência. O poema está localizado na Praça do Centenário, 137, ao lado da casa.
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=34029838 Foto 6
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32788803 Foto 7
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29. Canção de Itabira – Esse ponto dos Caminhos Drummondianos fica na rua Major Lage, nº 53 (casa de Marciana e Natércia Diniz) e o poema-título é dedicado a Zoraida Diniz.
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30. Dodona Guerra – Dodona Guerra era uma mulher que morava sozinha num casarão existente próximo à casa em que viveu Drummond. Existem várias histórias a respeito dela. Muitos a consideravam louca. Era alvo das chacotas infantis.
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31. Os gloriosos – A Igreja Nossa Senhora do Rosário obteve a permissão para ser erguida em 08/01/1770 e foi construída no final do século XVIII. Sua pia batismal chegou à Itabira em 23/03/1757. A pintura do teto da capela-mor, em estilo rococó, é atribuída a Mestre Atahyde ou a alguém de sua escola. O piso é de campas onde foram sepultados os negros escravos ou alforriados, pertencentes à Irmandade Nossa Senhora do Rosário, fundada em 1812. Essa igrejinha é relativamente próxima à casa em que viveu Drummond e a placa com o poema encontra-se no seu interior.
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=34029683 Foto
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32. Cemitério do Rosário – Esse cemitério fica ao lado da Igreja Nossa Senhora do Rosário
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33. Pintura do forro – Poesia que fala sobre a pintura do teto da Igreja Nossa Senhora do Rosário, que é atribuída a Mestre Atahyde ou a um de seus seguidores.
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34. Tantas fábricas – Poema que retrata a iniciativa privada no município, as tantas fábricas, muitas artesanais, outras com tecnologia de época. Localizado na casa onde residiu o Monsenhor Felicíssimo e onde depois funcionou o Hospital Nossa Senhora das Dores.
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=34029706 Foto
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35. No meio do caminho – Foi inaugurada uma estátua em bronze, em agosto de 2002, nesse local, onde está a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade. A estátua, que representa Drummond na pedra, foi feita pelo artista plástico itabirano Genin. Junto ao prédio, está afixada a placa-poema “No meio do caminho”.
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32788098 Foto 1
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32788174 Foto 2
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36. Música protegida – Homenagem de Drummond à Corporação Santa Cecília, que foi fundada em 16/11/1919 e tem como objetivo promover a educação, propagando e cultivando a arte musical entre seus associados.
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37. Guerra das ruas – Fica na subida da rua Santana, bairro Penha, que é o mais antigo de Itabira. Existia um certo conflito entre as ruas do bairro.
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38. Memória prévia – Mesma referência do item 37.
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39. Repetição – A rua Santana, no bairro Penha, abriga a casa onde morava a família Castilho, Sr.Juca, sua esposa e filhos, entre eles Ninita Castilho, amiga de Drummond. Pertenceu ao Sr. Caio Martins da Costa, e hoje, totalmente restaurada, aos herdeiros de José Maurício de Andrade.
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40. Uma casa – O Colégio Nossa Senhora das Dores foi fundado em 1923 pelas religiosas francesas, madre Maria de Jesus e madre Maria Miguel. Funcionava em regime de internato, semi-internato e em regime aberto, somente para mulheres. Na década de 1970, foi também aberto para a educação masculina. Na ocasião do jubileu do colégio, festa de seus 50 anos de fundação, a irmã Ivone foi ao Rio de Janeiro pedir a Drummond que escrevesse uma crônica no Jornal do Brasil sobre o colégio. Drummond alegou que as crônicas para aquele diário eram de conotação política. Então pediu à irmã Ivone que lhe mandasse uma fotografia do colégio, o que foi prontamente feito. O poema “Uma Casa” ficou guardado durante 25 anos pelas irmãs, divulgado apenas na agenda desta renomada instituição de ensino, sendo, portanto, inédito.
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41. O resto – Refere-se ao alto da rua Santana, localizado no bairro Penha.
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42. Edifício Esplendor – Poema escrito por Drummond ao seu amigo Oscar Niemeyer. Fica no Pico do Amor (Memorial Carlos Drummond de Andrade)
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43. Confidência do itabirano – Poema que retrata a saudade que o poeta tinha de sua terra natal. Está numa placa côncava, localizada em frente ao Memorial Carlos Drummond de Andrade. Alguns itabiranos, mais exigentes e desconfiados, questionam Drummond, quando, na poesia, ele diz “Itabira é apenas uma fotografia na parede”, mas ao se ler o poema por inteiro, percebem-se a paixão e a saudade do poeta. Disponibilizei a minha récita no link:
http://www.youtube.com/watch?v=YW9j9CzyPsk
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32789737 Foto 1
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32788251 Foto 2
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32789332 Foto 3
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32789374 Foto 4
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32787630 Foto 5
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44. Ausência – Essa poesia está no Pico do Amor, que é um mirante próximo ao Memorial Carlos Drummond de Andrade e de onde se tem uma visão panorâmica de Itabira.
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45. Espetáculo – Fica entre o Parque Municipal do Campestre e a Mata do Intelecto. Local com ótima visão da natureza.
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46. Infância – A sede de uma das fazendas do pai de Drummond (Fazenda do Pontal) foi demolida pela Vale e todo o material da demolição guardado para uma futura reconstrução, que acabou acontecendo no final da década de 90, num local próximo mas diferente do original. Em frente à casa reconstruída está uma estátua de bronze de Drummond criança com seu triciclo e a placa com a poesia “Infância”, que recitei e disponibilizei no link
http://www.youtube.com/watch?v=7WhXk6vYv5s
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32788129 Foto 1
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=32788349 Foto 2
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http://viewmorepics.myspace.com/index.cfm?fuseaction=viewImage&friendID=139730924&albumID=2141656&imageID=34029597 Foto 3
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47. Inscrições rupestres – Fica fora da cidade, em Senhora do Carmo, direção do município de Santa Maria de Itabira, por onde passei rumo à Diamantina.
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48. Rancho – Também fica longe da cidade de Itabira, na localidade de Ipoema, em direção ao município de Santa Maria de Itabira.
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Pode-se dizer que os Caminhos Drummondianos são o único “museu de território” do mundo dedicado à poesia. Porém, hoje, observa-se que uma boa parte das áreas demarcadas não está bem conservada. Inconformada diante dessa situação, dona Dadá Lacerda encabeça atualmente um movimento no sentido de renovar os Caminhos Drummondianos, cujos objetivos e contornos estão sendo apresentados publicamente através de palestras em que pretende estimular nos participantes o gosto pela poesia de Drummond, enquanto cronista que foi de Itabira, apresentando ao mundo os seus moradores, locais e situações do início do Século XX. A proposta de renovação prevê a uniformização do tamanho, formato e características gráficas das placas, que deverão expor os poemas em língua portuguesa. Uma versão em língua espanhola será apresentada em um guia poético, a ser editado com tradução a cargo de Manolo Graña.
O meu passeio turístico pelos Caminhos Drummondianos aconteceu no dia 22 de janeiro de 2009. No dia 23, por volta do meio-dia, segui minha viagem rumo a Diamantina, terra de Juscelino Kubitschek, que também nasceu em 1902 (Juscelino era de 12 de setembro e Drummond de 31 de outubro). Para terminar, deixo três presentes para vocês:
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1) Relação de 100 links com poesias de Carlos Drummond de Andrade, retirados do site
http://www.memoriaviva.com.br
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*Poema de sete faces
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*Infância
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*Também já fui brasileiro
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*No meio do caminho
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*Poesia
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*Quadrilha
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*Sociedade
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*Aurora
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*Soneto da perdida esperança
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*Hino nacional
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*Em face dos últimos acontecimentos
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*Necrológio dos desiludidos do amor
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*Sentimento do mundo
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*Confidência do Itabirano
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*Congresso Internacional do Medo
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*Privilégio do mar
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*Inocentes do Leblon
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*Os ombros suportam o mundo
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*Mãos dadas
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*Mundo grande
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*A bruxa
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*José
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*A mão suja
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*Consideração do
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*Procura da poesia
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*Caso do vestido
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Morte do leiteiro
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*Consolo na praia
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*Canção amiga
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*A ingaia ciência
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*Confissão
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*Memória
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*Amar
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*O enterrado vivo
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*Poema-orelha
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*A um bruxo, com amor
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*Fazenda
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*Destruição
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*Para sempre
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*O fim no começo
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*Parolagem da vida
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*Amor e seu tempo
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*Quero
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*Ainda que mal
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*O Deus de cada
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*Homem livre
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*Cuidado
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*Boitempo
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*Certas palavras
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*Le vouyer
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*A puta
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*Aula de português
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*Somem canivetes
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*O fim das coisas
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*Antepassado
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*Igual-desigual
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*A palavra
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*A falta de Érico Veríssimo
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*Visão de Clarice Lispector
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*Retrato de uma cidade
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*Elegia carioca
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*A palavra mágica
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*Prece do brasileiro
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*Falta um disco
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*Atriz
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*Três presentes de fim de ano
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*Ausência
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*A sem-razões do amor
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*Aspiração
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*A hora do cansaço
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*Verdade
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*O seu santo nome
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*Por quê?
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*Mortos que andam
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*Como encarar a morte
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*Inscrição tumular
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*Deus e suas criaturas
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*Hipótese
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*O ano passado
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*Lição
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*Passatempo
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*Além da Terra, além do Céu
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*O mundo é grande
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*Lira do amor romântico
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*O amor antigo
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*“A kiss, un baiser, un bacio”
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*Rio em flor de janeiro
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*Salário
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*Cariocas
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*Aparição amorosa
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*A bunda, que engraçada
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*A língua lambe
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*Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
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*Mulher andando nua pela casa
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*No corpo feminino, esse retiro
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*No mármore de tua bunda
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*À meia-noite, pelo telefone
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*Não quero ser o último a comer-te
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*A castidade com que abria as coxas
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2)Vídeo com Milton Nascimento e o grupo Ponto de Partida cantando “Canção amiga”, parceria de Milton e Carlos Drummond de Andrade, originalmente gravada no disco “Clube da Esquina nº 2”. Esse vídeo é de uma filmagem feita durante o Auto de Natal realizado em Itabira no dia 14 de dezembro de 2007.
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Link:
http://www.youtube.com/watch?v=wcZK7jwxJLw
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Letra: CANÇÃO AMIGA
Música: Milton Nascimento
Letra: Carlos Drummond de Andrade
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Eu preparo uma canção
Em que minha mãe se reconheça
Todas as mães se reconheçam
E que fale como dois olhos
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Caminho por uma rua
Que passa em muitos países
Se não me vêem, eu vejo
E saúdo velhos amigos
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Eu distribuo segredos
Como quem ama ou sorri
No jeito mais natural
Dois caminhos se procuram
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Minha vida, nossas vidas
Formam um só diamante
Aprendi novas palavras
E tornei outras mais belas
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Eu preparo uma canção
Que faça acordar os homens
E adormecer as crianças
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3)E, finalmente, duas poesias minhas, em homenagem ao grande ser humano que foi o mineiro Carlos Drummond de Andrade:
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I
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ANJO TORTO
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Se você me vir contente,
não se engane.
É só uma maneira de queimar a depressão,
não se iluda.
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Não tome meu ato espontâneo
como sinônimo de abuso.
Não veja meu raciocínio instantâneo
como um sentimento escuso.
..
São formas de quebrar protocolos,
maneiras de conseguir mais colos.
Desejo de conquistar os polos,
de renegar meus voos solos.
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Por isto, minha agressividade é nula,
minha tranquilidade é fula,
minha moralidade é chula.
Sentimento de anorexia e gula.
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Se você me vir contente,
é a minha tentativa de ser seu anjo torto.
Sete faces, um coração
e duas asas de avião.
...
II
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SANTO DRUMMOND
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Santo sem auréola,
Santo Drummond.
..
Seu milagre foi fazer
as palavras ficarem mais belas.
Guardo meus sentimentos dentro delas.
..
Não quero que o mundo nos veja,
não precisamos de ninguém que nos proteja.
..
Um dia, não muito distante,
todos os seus versos
servirão como indulgências,
todas as suas palavras
reterão as reticências...
...
E serão oferecidas como comunhão,
no ofertório da vida,
servidas ao povo em patenas.
...
Felipe Cerquize
..