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09/05/2009

ESTRADA REAL II

VISTA DE UMA RUA DE TIRADENTES DURANTE PASSEIO NOTURNO
TIRADENTES (MG)
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Saí às 14:00 h do dia 15/01, seguindo pela BR-040 (Rio–Brasília). As surpresas que tive nessa estrada foram três pedágios caríssimos e dois temporais de verão, rápidos, mas intensos. Depois de rodar pouco menos de 300 Km, entrei em Barbacena, onde parei rapidamente para deixar o passado invadir minhas lembranças mais à vontade, pois estive algumas vezes nessa cidade, no início da década de 80, na casa de parentes de minha mulher, que viviam lá e em Correia de Almeida, uma pequena cidade vizinha. Foi em Barbacena, naquela época, que convivi com a rotina de uma fazenda agropecuária, acordando cedo, vendo ordenhas de vaca, colheitas e gente matando a cobra e mostrando o pau, literalmente. Depois dessa breve parada, segui viagem por mais 60 Km de estrada, até chegar ao destino desejado.
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Tiradentes impressiona pela conservação de seus prédios e ruas, com respeito máximo às suas origens. Para se ter uma idéia, não há fiação aérea no centro histórico, pois toda a rede elétrica é subterrânea (o que não acontece em Ouro Preto, por exemplo). Cheguei de mansinho, chacoalhando nos pés-de-moleque, e subi pela rua em que dois colegas de trabalho haviam me sugerido duas pousadas. Como ambas estavam lotadas, sem opção, segui em frente, saí na rua da igreja matriz, desci a ladeira e, logo no seu início, apareceu uma entrada chamada Largo do Ó. Ali, havia uma pousadinha, “criativamente” chamada “do Ó”, onde fiquei.
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Apesar de estar entre as menores cidades do circuito que visitei, essa foi uma das poucas em que permaneci por dois dias inteiros. Muitas opções de bons restaurantes, um número razoável de atrações turísticas e duas outras cidades próximas, para onde fui, mas mantendo a base em Tiradentes: Bichinho e São João Del Rei. O melhor dos passeios dentro da cidade foi o de jardineira, em um giro noturno nesse carro antigo, onde o motorista percorre todas as ruas e para nos pontos mais notáveis para contar suas histórias de uma maneira bastante peculiar. O museu do padre Toledo (um inconfidente muito prestigiado na cidade), a Matriz de Santo Antônio, o Chafariz de São José, a única estátua de Tiradentes em que ele está vestido como alferes etc. O motorista tem uma maneira de contar as histórias que surpreende. Com ele, aprendi a origem de alguns termos e expressões, como “pé-de-moleque” (as mucamas faziam aquele doce com amendoim e o punham na janela para esfriar, quando, então, os meninos tentavam furtá-lo e elas apareciam e falavam: “Não faz isso! Pede, moleque, que eu te dou um pedaço!”), “sem eira nem beira” (as abas dos telhados dos ricos tinham dois acabamentos: um interno, que se chamava “eira” e outro externo, conhecido como “beira”. Na casa dos pobres não havia isso, daí a expressão que permanece até os dias de hoje) e “nas coxas” (na época do império, as telhas eram moldadas nas coxas das escravas e, por isso, saíam com tamanhos e formas variados, dependendo do corpo da modeladora. Daí a expressão, que passa a idéia de coisa mal feita). Ao final do passeio, subimos por uma ladeira e fomos parar num mirante, de onde avistamos as luzes da cidade e conseguimos identificar os principais prédios e todo o roteiro feito pela jardineira.
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Saindo para as cercanias, o passeio de maria-fumaça, que cada vez mais se multiplica pelas cidades históricas de Minas. Lá, o trajeto é de Tiradentes a São João Del Rei. Campos, rios, gado, apito e balanço de trem são coisas que me fazem rejuvenescer. Filmei um trecho do passeio, quando saíamos de São João Del Rei, o qual pode ser visto no endereço
http://www.youtube.com/watch?v=pocbHiuEEcs&feature=channel_page .
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Um espetáculo, também imperdível, é o que acontece após as missas noturnas da Matriz de Santo Antônio. Existe um sistema de som e luzes instalado na igreja, em que um locutor narra toda a sua história, descrevendo e iluminando separadamente cada um de seus altares, o órgão secular, as imagens barrocas, o sacrário etc. É um projeto que tem o patrocínio da Rede Globo.
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As lojas de artesanatos da cidade são muito variadas. O centro sempre muito movimentado e com muitos turistas. No Largo das Forras, principal de Tiradentes, ficam charretes para passeios e há muitos bares e restaurantes à sua volta. Os poetas aparecem junto com histórias sobre a Inconfidência (principalmente Tomaz Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto), mas não percebi a sublimação poética que é tão intensa em outras cidades históricas do circuito pelo qual passei. Porém, existem movimentos artísticos fortes na cidade e foi possível vê-los em ateliês, em exposições de arte moderna e em corais que se apresentavam pelas ruas. Filmei um desses grupos e disponibilizei a gravação no endereço
http://www.youtube.com/watch?v=2nfyd-auX58&feature=channel_page. É o Grupo Oficina de Teatro Entre & Vista que, naquele momento, cantava a música “Bem-te-vi”, de Renato Terra.
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Existem outros passeios, do tipo “adventure”, sendo o principal deles a subida pela Serra de São José, que pode ser feita a pé, a cavalo ou de jipe. Essa é uma opção turística que não me agrada muito, além do quê, o tempo fechado também não estava ajudando a fazer turismos mais radicais. Por essa e por outras, substituí essa atividade por passeios pelas lojas da cidade e por um bom chocolate quente na pousada. Também não deixei de comprar o famoso doce de leite do Bolota, indicado até pelo Guia Quatro Rodas (um doce de leite light, saborosíssimo, vendido na casa do proprietário).
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No dia 18 de janeiro, fiz o último passeio pela cidade, aprontei as malas e peguei o caminho para Ouro Preto, via Congonhas.
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SONETO PARA TIRADENTES
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Confundo a cidade com o homem,
confundo o homem com o conjurador.
Fecharei tuas ruas antes que as tomem,
juntarei meus versos com a tua dor.
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Romanceiros, poetas da Inconfidência,
sigo o rastro de teus apontamentos.
Meu suicídio é no cadafalso da inocência
e nas gotas de lágrimas de teus lamentos.
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Por aqui passaram mártires com sonhos,
por aqui passaram padres, poetas e loucos,
por aqui passou a liberdade em sementes.
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Por aqui passam muitos imbecis bisonhos,
por aqui passam tantos, mas são poucos
que desfrutam do sol de Tiradentes.
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Felipe Cerquize
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